O cinema brasileiro de terror vive o seu momento mais fértil e respeitado das últimas décadas. Longe de ser apenas uma sombra das produções hollywoodianas, os cineastas nacionais encontraram uma voz única ao misturar lendas regionais, tensões sociais e um realismo visceral que o público estrangeiro já começou a notar. Se antes o gênero ficava restrito ao nicho do misticismo ou da comédia involuntária, hoje o que vemos na tela é uma produção técnica impecável e roteiros perturbadores.
Essa nova safra de diretores entendeu que o Brasil é um território rico em folclore sombrio e desigualdades que, por si só, já geram um horror palpável. De casas mal-assombradas no interior do país a rituais urbanos em grandes metrópoles, a diversidade de temas mostra que o nosso país tem muito a oferecer para os fãs de sustos inteligentes. Para quem deseja explorar essa faceta obscura da nossa cultura, nós do Os Cinéfilos preparamos uma seleção indispensável.
O rastro (2017)

Considerado um dos marcos da retomada do horror comercial no Brasil, este filme utiliza um hospital público desativado no Rio de Janeiro como cenário para uma trama de investigação e sobrenatural. A história acompanha um médico encarregado de transferir pacientes de um hospital em decadência quando, durante o processo, uma criança desaparece sem deixar rastros, levando-o a um mergulho em segredos institucionais sombrios.
O grande trunfo aqui é o uso da decadência urbana e da crise na saúde como pano de fundo para o medo. A atmosfera claustrofóbica dos corredores escuros e o uso eficiente de efeitos sonoros fazem com que o espectador sinta a mesma insegurança do protagonista. É um filme que mostra como o horror pode nascer de problemas reais e sistêmicos da nossa sociedade, tornando a experiência muito mais próxima da nossa realidade.
As boas maneiras (2017)

Esta produção é uma mistura ousada de terror, fantasia e drama social. Ambientado em São Paulo, o longa narra o encontro entre uma enfermeira contratada como babá e uma mulher misteriosa que espera um filho em condições incomuns. À medida que a lua cheia se aproxima, o comportamento da gestante muda drasticamente, e o filme transita de um suspense íntimo para um horror de criatura surpreendente.
O filme se destaca por sua estética impecável e por não ter medo de abraçar o fantástico. Ao tratar a lenda do lobisomem sob uma ótica brasileira e urbana, os diretores criaram uma obra que é ao mesmo tempo bela e perturbadora. É o tipo de cinema que desafia classificações simples e prova que a criatividade nacional não tem limites quando o assunto é subverter as expectativas do público.
Morto não fala (2019)

Neste thriller sobrenatural, acompanhamos a vida de Stênio, um plantonista de um IML que possui o dom — ou a maldição — de falar com os mortos que chegam à sua mesa. O que começa como uma vantagem para resolver crimes e pendências alheias acaba se tornando um perigo mortal quando ele usa uma dessas informações privilegiadas para se vingar em sua vida pessoal, desencadeando uma maldição sobre sua própria família.
O filme brilha ao apresentar um horror gráfico e sujo, longe do brilho plástico das grandes produções. A atuação de Daniel de Oliveira entrega um homem comum sendo consumido pelo medo e pela culpa. A forma como o sobrenatural invade a periferia brasileira e a rotina de um trabalhador comum cria um laço de identificação que torna os sustos muito mais eficientes e pesados.
O que essas obras dizem sobre o nosso cinema
O que esses filmes brasileiros de terror têm em comum é a coragem de olhar para o próprio quintal para encontrar o que nos assusta. Eles abandonam o desejo de serem cópias de filmes estrangeiros e assumem as cores, os problemas e as lendas do Brasil como motor narrativo. Isso cria um cinema de gênero que não apenas assusta, mas também faz refletir sobre quem somos e quais são os nossos fantasmas reais.
Acompanhar essas produções em 2026 é essencial para entender a maturidade da nossa indústria. O medo nacional deixou de ser um tabu para se tornar uma das ferramentas mais potentes de expressão artística no país. Cada um desses títulos abriu portas para novos cineastas, garantindo que o horror continue sendo um dos gêneros mais vibrantes e comentados das próximas temporadas.
Mas não se engane achando que já viu o pior; o próximo grande pesadelo brasileiro pode estar sendo filmado agora mesmo no silêncio da sua rua.


